
Em novo livro, professor de Oxford sustenta que a migração de PCs para appliances e o estado atemorizante da cibersegurança vão retardar a inovação
Fonte:Network World, EUAO iPhone e o Xbox estão matando a internet? Esta é a pergunta que faz o professor da Universidade de Oxford, Jonathan Zittrain, em seu novo livro, “The Future of the Internet and How to Stop It”, ainda sem edição em português.
Zittrain, representante autêntico dos “digiterati” (literatos digitais), é um especialista em direito digital com diplomas por Yale e Harvard, além de ser professor de governança e regulamentação da internet na Universidade de Oxford e co-fundador do Centro Berkman para Internet e Sociedade, da Escola de Direito de Harvard.
Segundo Zittrain, os atuais dispositivos para internet, como o iPhone e o Xbox, atrasam a inovação.
Fechados (classificados pelo estudioso como ‘tethered appliances’, appliance acorrentados), estes aparelhos proíbem ajustes por parte dos usuários finais. Essa capacidade de interação com os usuários finais foi fundamental, garante, para transformar os PCs e a internet em uma grande alavanca de mudança econômica, política e artística.
Na segunda parte da reportagem:Zittrain avalia os riscos à web 2.0 e indica como manter a força revolucionária da internet
Zittrain entende por que tais dispositivos são atrativos para os usuários de internet comuns: eles são belamente empacotados, fáceis de usar e confiáveis.
“O que nos cansou nos PCs foram as coisas desinteressantes que acompanharam o PC como Vírus, spam, roubo de identidade, quebras: tudo isso foi conseqüência de uma certa liberdade incorporada ao PC. À medida que estes problemas se agravaram, para muitos a promessa de segurança se tornou razão suficiente para abrir mão da liberdade.”, resume Zittrain.
Zittrain alega que, se a situação da cibersegurança não melhorar, migraremos para um tipo diferente de internet. Todos os endpoints da nova internet serão dispositivos como os iPhones, fechados, controlados por seus fabricantes, em vez de PCs abertos, modificáveis, conectados a uma rede aberta capaz de fomentar a rodada seguinte de inovação revolucionária.
O futuro não será dos PCs abertos (chamados pelo especialista como generativos) conectados a uma rede aberta. Será dos dispositivos fechados, presos a uma rede de controle, alerta Zittrain.
Não se trata da extinção iminente dos PCs, ressalta Zittrain. Sua preocupação é que eles estão sendo fechados e proibidos de executar o código-fonte aberto que impulsionou grande parte das novas capacidades da internet.
“Se os problemas da segurança piorarem e o medo se espalhar, os usuários comuns vão preferir alguma forma de confinamento – e os reguladores vão acelerar o processo”, vislumbra Zittrain.
Nesta transição, perderemos um mundo onde a tecnologia mainstream pode ser influenciada, até mesmo revolucionada, por fontes inesperadas.
Do mainframe ao PC; do PC ao applianceO livro de Zittrain acompanha a história do PC de uso geral e como ele sobrepujou terminais de mainframe e dispositivos especializados, como os processadores de texto. A força do PC está em ter sido projetado para executar software de terceiros em vez de se limitar a software desenvolvido pelo fabricante.
“Quanto maior era o número de desenvolvedores externos escrevendo novo código, mais valioso um computador se tornava para mais pessoas.”
Fenômeno idêntico se deu com as redes à medida que a internet aberta ultrapassou redes proprietárias como o sistema telefônico, AOL, CompuServe e Prodigy. Foi necessário quebrar o monopólio da AT&T para que terceiros pudessem criar novos dispositivos como as secretárias eletrônicas, os aparelhos de fax e os modems dial-up.
A internet, por outro lado, tinha um design aberto e uma filosofia de compartilhamento e confiança que estimularam o desenvolvimento por terceiros.
Zittrain sustenta que a era atual de PCs generativos aliados à internet generativa está chegando ao fim. De acordo com Zittrain, sistemas generativos são aqueles alavancados para diversas tarefas, adaptáveis a uma ampla gama de usos, fáceis de dominar e acessíveis para muitos, além de permitir que mudanças sejam transferidas rapidamente para outros.
“O status quo está próximo do fim, confrontando todos nós – formuladores de políticas, empreendedores, provedores de tecnologia e, mais importante, usuários de internet e de PC – com opções que não podemos mais ignorar”, escreve.
O que está causando a mudança no status quo? O estado atemorizante da segurança digital.
No terceiro capítulo do seu livro, Zittrain traz uma história sucinta de worms, malware, botnets e outras ameaças que eclodiram na internet na década passada.
Ele alega que uma dentre duas coisas acontecerá no futuro: um divisor de águas da segurança, como um Pearl Harbor digital, ou a morte provocada por milhares de pequenas brechas na segurança. Qualquer um destes dois cenários decretará o fim do combo PC generativo/internet e fomentará a era dos dispositivos controlados.
"A sociedade pagará um preço alto para proteger a internet", estima Zittrain.
“Se o PC não estiver mais no centro do ecossistema da tecnologia da informação, os aspectos mais restritivos dos dispositivos de informação virão para primeiro plano”, prevê.
Zittrain tem uma forte justificativa para os benefícios da combinação PC generativo/internet. Ele diz que os sistemas generativos incentivam a inovação, particularmente a inovação revolucionária, enquanto os sistemas não-generativos, como os appliances, provêem facilidade de uso e segurança.
A maioria das inovações-chave da internet – e-mail grátis na web, serviços de hospedagem, mensagem instantânea, redes sociais e ferramentas de busca – foi criada por indivíduos ou grupos de amadores, e não por fabricantes de TI líderes, garante Zittrain.
A mesma tendência está acontecendo com o conteúdo à medida que os usuários de internet democratizam a criação de crítica política, músicas e filmes, antes sob o controle das indústrias editorial, cinematográfica e fonográfica.
“A generatividade na camada técnica pode conduzir a novas formas de expressão em outras camadas que recebem a contribuição de não-programadores -- culturais, políticas, sociais, econômicas e literárias”, escreve Zittrain. Tudo isso corre risco de acabar se a infra-estrutura da internet for significativamente fechada.
Controle pelo fabricanteAlém da perda de generatividade, os dispositivos fechados representam uma ameaça porque podem ser controlados remotamente pelos fabricantes. O iPhone, por exemplo, procura e remove modificações feitas por usuários.
Para Zittrain, é nefasta a capacidade dos fabricantes de alterar os dispositivos depois que os usuários finais os compraram e instalaram. Esta capacidade dos dispositivos gera uma ameaça crescente de intervenção por reguladores.
“A evolução mais óbvia do computador e da rede – para o movimento de transformação de PCs em appliances fechados – é ruim no geral”, escreve Zittrain. “Convida a uma intervenção reguladora que rompe um equilíbrio sábio, o qual depende de reguladores agindo com leveza, como fizeram tradicionalmente em sociedades liberais.”
Os fabricantes podem controlar os dispositivos fechados de três maneiras: através de preempção, ou seja, eles podem projetar para determinadas finalidades; por injunção específica, ou seja, eles podem alterar o produto remotamente em resposta a uma ação legal, como uma ordem judicial; ou por vigilância, ou seja, eles podem utilizar o dispositivo para fornecer informação sobre o usuário final.
Zittrain ressalta que o FBI pode fazer uma escuta em qualquer automóvel dotado do sistema de navegação OnStar assim como pode transformar um telefone celular em um microfone. Da mesma forma, os fabricantes de gravadores digitais de vídeo podem fazer algum recurso se autodestruir se isso lhes for solicitado em um processo judicial de violação de patentes.